Monozukuri

Monozukuri

Dando continuidade a série de artigos sobre termos nipônicos que são utilizados na indústria ou que serviram de influência sobre algumas das técnicas que utilizamos no nosso dia a dia, falaremos sobre Monozukuri.

Monozukuri faz parte daquele grupo de palavras japonesas difíceis de traduzir e transmitir toda essência do seu verdadeiro significado. Em sua tradução literal significa simplesmente “fazer coisas”. Agora acrescente o sentimento de respeito à natureza, ao produto, às ferramentas, à matéria-prima, ao seu local de trabalho, às pessoas envolvidas no processo, aos antepassados e ao futuro. Parece complicado de entender, e realmente é. Conseguimos quase afirmar que Monozukuri serviu de alma mater para o TPS (Toyota Production System) pois encontramos muitas semelhanças dentro do sistema de produção da Toyota, além de outros sistemas de produção de empresas japonesas, como o da Komatsu e o da Nissan.

A palavra ganhou maior notoriedade quando o Gabinete do Primeiro-Ministro japonês criou em 1998 o “Monozukuri Kondankai”, cujo objetivo era reverter a desindustrialização que o Japão vinha sentindo na década de 90, reforçando os pontos fortes da indústria japonesa. Sua origem, no entanto, é muito mais antiga.

Monozukuri é uma Yamato Kotoba, uma palavra criada pelo povo Yamato, o primeiro povo que habitou o arquipélago japonês. A palavra remete-se ao sistema de trabalho de um artesão, com influências do Xintoísmo que, resumidamente, tratava tudo e todos com muito respeito ao considerar que todas as coisas possuem almas e, portanto, além de respeitadas, não devem ser usadas em vão e muito menos desperdiçadas.

O respeito pelas “coisas” é levado tão a sério que existem rituais de agradecimento aos equipamentos utilizados no processo de fabricação quando eles estão se “aposentando”. Um exemplo desses rituais é uma cena em que temos um grupo de pessoas espetando agulhas velhas em um tofu. Essas agulhas trabalharam muito costurando roupas e merecem, ao final de sua vida útil, descansar permanentemente em algo menos denso, mais delicado.

Como comentado, não existe tradução literal de Monozukuri para o português, mas se pudéssemos explicitar o seu significado em uma frase, seria algo do tipo: “processo de transformação de algo abstrato (uma ideia ou uma necessidade) em algo concreto (um produto), sem desperdiçar matéria-prima, utilizando máquinas de forma adequada, respeitando as pessoas, procurando sempre a melhor forma de fazer, entregando um produto de extrema qualidade e tudo isso com um imenso sentimento de gratidão.”

A metodologia KAIZEN™ desenvolvida pelo fundador do Kaizen Institute, Masaaki Imai, possui fortes influências do tradicional Monozukuri. A metodologia se baseia em cinco princípios: criação de valor ao cliente, eliminação de muda (desperdício), eficácia no Gemba* (onde se agrega valor ao produto), gestão visual e envolvimento das pessoas.

Atualmente, o Monozukuri faz parte de um dos três conceitos utilizados pela Toyota de forma interligada para construção de seus valores corporativos. Completando essa tríade, temos o Hitozukuri (“fazer pessoas”) e Kotozukuri (“fazer as coisas acontecerem”), que também compõem o mesmo grupo de palavras japonesas difíceis de traduzir em poucas palavras, conceitos que serão abordados nos próximos artigos da série.

O vídeo abaixo mostra um mestre artesão em sua tarefa manual repetitiva, ele captura como o cuidado e a dedicação de uma pessoa a uma única coisa cria um padrão mais elevado para todas as outras - uma atitude que permeia a vida diária japonesa.

Artesão japonês

*gemba faz parte da metodologia 5 GEN, junto de Gembutsu, Genjitsu, Genri e Gensoku.

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